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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Vezo Cotidiano

Giramos. Todos os dias rodamos sobre nós próprios. Dia e noite, noite dia, ciclicamente enquanto a terra não nos devora e o disco que somos não deixa de se ouvir.
Ouvimo-nos?
Giramos...
Observamos quem gira em redor.
Giramos...
Voltando sempre ao início da faixa exordial.
Rodamos sozinhos, nesta solidão rotineira que nos consome, apenas fazendo sentido quando nos cantam, quando nos tocam, quando nos ouvem, quando nos sentem.
Giramos em roda viva reinventada, desde o nascimento até à morte. Esse é o espaço que somos.
E tocamos. Tocamos até que o cansaço nos vença, que a vida não passe de um vinil riscado, que as notas percam o sentido e nada mais em nós ecoe que não o desgaste.
Ou tocamos harmoniosamente, rodopiando para sempre no coração, espaço-casa, de quem seja capaz de dançar por nos ter.

 

Do imediatismo da vida, valha-nos quem nos aconchegue os acordes desta ádvena existência.

 

Travessia

Atravessar a humanidade deserta,
de mochila às costas
e beber do sossego das pontes
que me unem.
Externa, do lado oposto do mundo,
ligo-me p'lo coração
às paisagens suburbanas,
ao chilrear das aves no campo,
à ternura bucólica de uma tela,
que pela janela 
- baixa-mar dos meus olhos - 
entra serena.
Atravessar a devastação
das almas vazias e esperança morena,
ardida a chama,
por que ao mundo vieram?
Naufragar nas cândidas águas de um rio.
Ser nenúfar.
Flutuar num pântano.
Não saber de nada.
Nem de mim.
Partir.
Rufar como tambores em surdina,
gritar como o silêncio
e, para lá da rotina,
ligar-me p'lo coração à paixão 
de um poema vivo.
Para lá de mim, a humanidade.
Para cá, a caminho do meu ser,
as pontes, o mar, o sol, as flores,
os vales, o arco-íris, as fontes,
o luar, o amor e o acreditar que
externa, do lado oposto do mundo,
hei-de chegar, eterna e devagar,
a leves braços humanos
onde inteira possa ficar
...
E ser poesia.

 

Aos Poetas, neste Dia Mundial da Poesia

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Poetas.

Seres que só sonham. Seres que só sentem. Essa sede que têm de amar a tudo e a todos. Até a vida.

Poetas.
Esses seres que vivem do avesso, com o coração de fora. Que estranha forma de vida...
Os Poetas nada sabem, senão da vida. E tudo o que sabem já é demais.
Os Poetas usam-te. Usam-te os olhos, o nariz, os lábios, cada fio de cabelo, até a sola dos pés. Descrevem-te os contornos e embelezam-te a alma, mesmo quando negra.
Já os vi usar paisagens, cidades, edificios inteiros, recantos escondidos, a terra e o mar, o céu, a lua, o grito e o silêncio, o Mundo. A guerra e a paz, o rico e o pobre, o bonito e o feio, o amor e o ódio.
Os Poetas são especialistas em sentir. Experimentam as suas mais diversas formas. Seres insaciados. Por isso morrem, tantas vezes, novos. Overdose de sentidos.

Poetas.
Seres obcecados com a musicalidade daquilo que dizem, de tudo o que vêm, até do que escrevem.
E a teimosia que encerram em querer pintar a vida? Acham-se donos das cores do arco-íris. E são.

Poetas.
Seres capazes de transformar o que dói num sorriso, o que fere em amor, o que mata em vida, a escuridão em luz.
Nunca vi ninguém venerar tanto um sentimento agreste como a saudade, quanto um poeta. Desconfio até que estes seres transformam qualquer presença em ausência, para que possam ter mais meia dúzia de versos para escrever.
A verdade é que vivem com as entranhas de fora e, mesmo assim, passam despercebidos. Não se fazem notar, nem sabem, eles próprios, se são bonitos ou feios. Repugnam o supérfulo, admiram o detalhe. Parecem alienados do mundo. Transmitem serenidade mas, se lhes abrires a cabeça, protege-te do furacão de ideias e conhecimentos. Da inteligência.

Os Poetas estão-se nas tintas para o paleio e conversa fiada. Só querem escrever. Só querem sentir.
Alimentam-se sobretudo de amor e, quando este lhes falta, morrem devagarinho e gritam, gritam tanto que o silêncio ensurdece. E nascem poemas.

Poetas. 
Ninguém se torna poeta. Ninguém idealiza ser poeta. Alguns nascem poetas e só esses morrem poetas, porque foram poetas da vida.


E eu, que não sou poeta, tao pouco poetisa, estou certa que, no dia em que morrer, alguns irão perguntar:
-Morreu? Morreu de quê?
E alguém lhes responderá:
-Coitada. Nasceu poeta.

Abarcar

É preciso escrever com as mãos limpas
o eco da poesia que corre
entre as margens de erro da vida;
e emendar o céu... 
com o olhar simples
de quem apanha as estrelas distraídas
e voa, para que se abracem,
encurtando a distância
que, sob qualquer circunstância,
cabe inteira num poema.
Sem fragmentos, respiração suspensa
e uma história imóvel
entre os gracejos de um copo de vinho
que aviva veloz, a memória da tua voz
doce e calma a léguas de mim…
É preciso corrigir a lonjura sempre que chove
e o dilúvio da cidade solitária se abate sobre os nossos corações.
… escorrem as emoções, ao sul
desaguando no mar azul
que te tráz...
e só termina nos meus olhos.

Abarca-me.

Reflexões - 8

Sempre tive a sensação que só vivi, realmente, aquilo que senti ou me foi permitido sentir. Aquilo que em mim ficou gravado e se expressa, ou expressou, através de emoções. Tudo o mais, foi apenas um nada que por mim passou.

        Rita

 

E a vida é mesmo isso, um conjunto de acasos, situações e ocorrências, de momentos e experiências em nós expressos e impressos através de emoções. Tudo o mais, é nada. É apenas o tempo que passa. 

O caminho a seguir

Às costas carregava o tempo e nos pés os percalços do caminho. Não podia parar porque, embora de rosto voltado para trás, o relógio avançava e os ponteiros seguiam. E seguiam também os seu pés molhados, enregelados do frio, doridos do caminho, sentido cada pedra que pisavam, cada centímetro do chão. 

Sem permissão, entravam-lhe pelos olhos as paisagens, pessoas cruzavam o seu caminho e os sons exteriores quebravam o silêncio, quando só o seu coração se ouvia tum, tum,tum, tum; batimento certo, solitário porém, sem a musicalidade da vida.
Os ponteiros seguiam a um ritmo acelerado fazendo correr o tempo. Os pés acompanhavam e a vida alargava a passada parecendo, porém, não sair do mesmo sítio.
Olhava para trás a sombra, para a frente o relógio, para o presente os pés doridos e, à medida que se alteravam as paisagens, novos rostos surgiam, outros partiam, alguns, poucos, ficavam. Apesar das mudanças, em Artur permanecia a esperança de chegar onde a vontade queria, de conseguir alcançar o que a força permitia e de nunca deixar de lutar pelo que sempre acreditou que um dia seria possível.
Sabia que numa dada hora o relógio viraria, permitindo aos ponteiros olhar  para o mesmo caminho que os pés percorriam. O ritmo acertar-se-ia e Artur passaria a acompanhar o andar do tempo e o correr dos dias sem fugir da vida. Cortaria metas, abraçaria conquistas, ganharia as suas lutas e teria finalmente a certeza de que havia valido a pena molhar, gelar, arrastar e ferir os pés para o conseguir!


O caminho não tem fim, a não ser quando o tempo pára e se esgota o tum,tum,tum,tum que o faz viver.

Apesar dos percalços, Artur não desistiu dos seus sonhos e deixou-nos uma grande lição:
Enquanto houver pés para andar, força para lutar, vontade de conseguir, olhos para ver, coração para sentir e cabeça para pensar, o caminho a seguir vai ser aquele em que realmente se acreditar!

Lê-me como quem beija

 

 

Lê-me como quem beija e sente o toque das palavras na alma, o arrepio na pele e a suavidade nos lábios quando as lês. 

Lê-me como quem beija e deixa-te absorver por cada linha, em cada gesto escrito e descrito e em cada rasto sentido, deixado pelos dedos suaves de alguém ao escrever.

Lê-me como quem beija e deixa que os teus olhos pintem uma tela, um beijo em aguarela, ao sabor de um poema.
Lê-me como quem beija e sente o coração palpitar, a mente esvoaçar e o corpo tremer.

Lê-me como quem beija e deixa-te pelas linhas levar, sente os teus olhos a fechar de vagar e agora, a sonhar, relembra-me só mais uma vez.