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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

O Teu Sol

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O sol ainda nasce e se deita no mesmo horizonte, nos braços do mar. E ainda guarda a cor da vista daquela janela, que os meus olhos abriam para os teus.
Eras tu e o fim da tarde. Ganhavas tu, sempre que os dias se despediam num clarão de sol, que do teu sorriso se soltava.
O piar das gaivotas, a respiração salgada das gotas que o corpo da minha lembrança embala. Faltam-me as asas. Falta-me o céu como passaporte para rasgar o vento e pousar levemente no beiral noturno da tua janela. Anseio por voltar a casa, espaço meu no teu peito.
Do tempo do amor sem pressa, não ficou nada para além de nós, para além da vista de uma janela que nunca é a mesma quando o peito se abre. Diz-me, para quê fugir se não temos abrigo?
A campainha do apartamento que fomos permanece avariada, as chaves dos sonhos pousadas, o elevador da vida por concertar. E pelas escadas inacabadas, descalços, chegamos ao céu?
Não voltámos à janela, nem arrumámos a desorganização do espaço que o nosso amor ocupa. O caos, assim como o mar, não depende dos olhos de quem o vê, mas da extensão do amor que nos invade quando uma janela se abre.
O sol ainda nasce e se deita no mesmo leito, iluminando os magestosos jardins dos nossos planos.
... Onde estamos?

 

Enlaces

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Éramos, talvez crianças, sempre que as mãos se entrelaçavam e sorriam - as tuas - ao largo dos meus caracóis.
Éramos, talvez a esperança, quando o olhar se cruzava e os meus olhos me inundavam de verde mar.
Éramos, talvez rebuçados, sempre que os lábios se encontravam, na curva dos beijos roubados, ao sol poente.
Éramos, talvez a corrida, sempre que soava a partida e me acompanhavas o rosto à janela.
Éramos, talvez o amor, de mãos dadas a correr em direção à loja das guloseimas.
Éramos, talvez a vida, que só é sentida quando damos as mãos.

Fizemos o mar...

Não tenho mais do que o sonho em que adormeço. E que me envolve, apertando seguro, o peito que aberto arde. Invariavelmente diferentes, os versos que me fazem, a ti os dei, como o mar oferece à Lua o seu reflexo.
Éramos só nós. Inconfundivelmente desenhados no cândido voo das gaivotas livres, manchando o céu, despertando a aurora do amor. Nos teus braços de poeta, rimou o meu coração com as histórias enamoradas onde nos deitei. Nascíamos ao pôr-do-sol, ao ritmo das estrelas claras e adormecíamos no horizonte do amanhã, depois do breve, mas lento momento em que o céu e o mar se fundiam.
Navegadores ao largo, fizemos o mar.
De marés vivi, assolada pelas ondas marginais de um amor que me fez naufrago o peito. Faz frio. O vento corta e coração arrefece, padece, falece…
Não tenho mais do que as memórias, nuvens e insónias de tudo o quanto de nós ficou. Nada nos deixa, tudo se transforma, na medida extacta das asas das gaivotas, agora em terra.
Abortados os voos, permaneço ao largo, na praia que existe em mim. Neste repetir do verso final que sou. De peito aberto e ferido…


Dói-me o amor.

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Terra Fértil

Veio o vento soprar-me ao ouvido de menina,
segredos de um país distante.
Cheirava a terra molhada
e a sonhos prometidos.
Não sei se era o futuro, ou a saudade
de tudo quanto ainda não vivi.
Se era uma ou outra,
qualquer coisa entre elas,
ou mais ou menos isso.

 

Estalava a madeira no prolongamento da madrugada,
como as cartilagens estalam aprisionadas no meu corpo.
Cheirava a despedida
e choviam passados lá fora.
Feitos de lágrimas, os Homens eram todos feitos de lágrimas.
Sem cheiro a terra molhada,
sem a candura poética
de quem sofre ou ama,
sofrega e desesperadamente,
ou de vagar, muito devagarinho, de mansinho
como passarinho em ninho de sonhos.
Nada. Nem uma coisa nem outra.
Tão pouco qualquer coisa entre elas.

 

Veio o vento soprar-me ao ouvido de menina,
a canção de um país distante.
Para lá da linha, para lá dos olhos,
para além da imaginação.
Se era o futuro ou a poesia, não sei.
Fusão de ambas, talvez.
És terra. Sou chuva.
Casa fértil, sonhada para lá do horizonte.
Nosso, o jardim de terra molhada, onde brotam sonhos
com cheiro d'amor.

 

Vieste tu soprar-me ao ouvido de menina,
a poesia do coração.
Demos as mãos...
... hoje, ainda cheira a terra molhada!

De amor se fez

Aproxima-te, de mansinho.
Suave e devagarinho.
Descontraidamente, como quem mente
ao silêncio que me consome
a alma nua.
Desfolhada que a vida me fez...
rosada a tez (pétalas de saudade),
que um dia vã se fez, na incerteza da hora.

 

Aproxima-te, de mansinho.
Traz o dia. E o sol. E as manhãs risonhas.
E o chilrear das aves lá fora. E o som do mundo.
A junção de todas as notas da vida a bater na vidraça.
Aproxima-te, devagarinho
para que eu não te veja chegar
e ocupar o lugar do silêncio
que ainda dorme no meu leito
e me deixa ao acordar.

 

Suave e de mansinho.
Devagar, devagarinho...
Para que o soalho de sonhos não ranja
e constranja - sem querer -
as notas soltas do choro da criança
que é o amor ao nascer.

 

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