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Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Conta-me Histórias

' O Homem é sempre um contador de histórias. Vê tudo o que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma. ' (Jean-Paul Sartre)

Poema a dois

Antigamente eu era eterno,
não cedia a este frio que me escalda os ossos
imperfeitos. O mundo ardia e eu fingia, que não via.
Saía, de manhã, e o dia estava sempre bonito 
como tu, à janela da verdade!
E eu sorria ao tempo nunca perdido e celebrava a virgindade de todas as coisas,
como brisa nas árvores... liberdade arrebatadora de uma alma exaltada.
Hoje, bebo whisky a goles sorvidos a compasso
por memórias salobras inscritas no meu peito sedento;
sei de cor os depois depois de todos os depois...
E os agora? Diz-me! O que é feito dos agora se depois...
se depois do agora me vou e findo?

 

Antigamente eu era eterno.


Rita Palma e Gonçalo Martins

Ser ou não ser... Eis a questão!

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Lewis Carroll, in Alice no País das Maravilhas

 

 

 

 

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.


- Fernando Pessoa -

 

 

Nasci uma, duas, três, quatro ou cinco vezes. Talvez mais, em vinte e nove anos de existência.
Descobri-me a mim e ao mundo, a cada um dos meus nascimentos. Reaprendi-me e reaprendi outros, tantos quantos na minha vida ainda hoje presentes estão, ou passaram...
Fiz-lhes, também a eles, o luto em diversas ocasiões, assim como assisti aos seus posteriores nascimentos (de alguns, de outros limitei-me a funerais).
Quem nos diz que somos os mesmos ao longo das experiências e vivências, pelas quais aqui, ao mundo, viemos?
Eu fui quem no presente já não sou. E sou, quem no passado não teria bagagem para poder ser. Sou um acumular de experiências e acontecimentos, de pessoas, realidades e aprendizagens. Constantemente mudo e me transformo, tangente a tudo o que me molda e envolve, me vive, me sente e me faz.
Tive uma dezena de mães, e irmãos foram tantos quantas as Ritas que com eles nasceram. Cá em casa, já não vivem os mesmos. Ainda ontem nos sentámos à mesa, os atuais, não os de outrora, voltando à descoberta uns dos outros.
De amores, também com eles nasci e morri. Sendo que, relativamente a mim, de igual forma assim lhes sucedeu.
As amizades, as que o tempo não esborratou, como borrões de tinta aos quais já só recordamos a cor, também sofreram metamorfoses. Umas vezes lagartas, outras borboletas de asas vivas.
Já exorcizei, já matei e já enterrei em valas comuns pedaços de mim. Através de palavras, é certo. Não às armas! Sim ao amor e à poesia de cada momento.

Partilhar a vida, conosco e com os demais, implica e sempre implicará ajustes, cedências, momentos de individualidade, outros de partilha, flexibilidade, mudança e aprendizagem. Erros, acertos, despedidas, chegadas, finais e novos começos.

Não somos os mesmos: filhos, mães, pais, irmãos, netos ou avós. Maridos, mulheres, namorados ou companheiros. Amigos, vizinhos ou colegas. Não somos nós, os mesmos que fomos ou viremos a ser. Também não o são, aqueles que ao nosso lado ou em redor, se encontram.
Nada é permanente. Sendo nós o resultado de Tudo.

 

 

Sim, sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobresselente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.

Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

 

- Álvaro de Campos 

 

Travessia

Atravessar a humanidade deserta,
de mochila às costas
e beber do sossego das pontes
que me unem.
Externa, do lado oposto do mundo,
ligo-me p'lo coração
às paisagens suburbanas,
ao chilrear das aves no campo,
à ternura bucólica de uma tela,
que pela janela 
- baixa-mar dos meus olhos - 
entra serena.
Atravessar a devastação
das almas vazias e esperança morena,
ardida a chama,
por que ao mundo vieram?
Naufragar nas cândidas águas de um rio.
Ser nenúfar.
Flutuar num pântano.
Não saber de nada.
Nem de mim.
Partir.
Rufar como tambores em surdina,
gritar como o silêncio
e, para lá da rotina,
ligar-me p'lo coração à paixão 
de um poema vivo.
Para lá de mim, a humanidade.
Para cá, a caminho do meu ser,
as pontes, o mar, o sol, as flores,
os vales, o arco-íris, as fontes,
o luar, o amor e o acreditar que
externa, do lado oposto do mundo,
hei-de chegar, eterna e devagar,
a leves braços humanos
onde inteira possa ficar
...
E ser poesia.

 

Quero

Quero querer, ou será que queria,
um dia...
esquecer a lembrança
que recordo quando adormeço?
A que levaste contigo para onde nunca partiste,
lugar sem nome onde presente estás e de onde voltas
quantas vezes eu fechar os olhos e te sentir.
Queria querer que essas viagens em que te posso ouvir,
te trouxessem no esquecimento do que nos faltou viver.
Neste tempo sem morada, nesta saudade sem ausência,
em que a distância é lugar onde habito,
fechada no baú de recordações dos tecidos antigos
com que o coração se vestiu,
e que jazem, agora, em farrapos de memórias que quero despir.
O que foi que deixaste quando partiste?
Ou será que não foste?
Levaste o corpo?
Livre.
Deixaste em mim a alma?
Viva.
Deambulas tu pelos dias, vazio de mim, nascendo de novo.
Morro eu por transbordar de ti.
Quero querer, ou será que queria, um dia…
devolver-te o tempo em que te vivi demais?
Quero querer, ou será que queria?
Antes que morra e te leve comigo
quero-te!

 

(Im)Perfeitos

Escritos por nós e sobre nós próprios, os
rascunhos dos passos a lápis traçados
e limpos. Apagados que foram os rastos
das pontas das vidas perdidas,
que se arrastam,
entre as borrachas que se passam
e limpam o chão
das pegadas errantes que deixamos.


Versos mortos num colchão
à noite acordado e manchado
p’la tinta da caneta com que tememos escrever
o presente, assente em estacas movediças
e cobiças alheias;
rasurados que estamos
e emendados que precisamos constantemente de ser!
Que terrível seria aparecer
vestido de folha de redação da primária;
de vermelho riscada, a transparecer
erros comuns.

- A caneta, deuses terrenos,
só a necrologia humana:
“Morreu por extinção o erro, às mãos da perfeição de Ninguém."

Sem mais, sem menos

 
 
 

homem-ignorando-mendigo.jpg

 

 

Não creio que sejas tu mais do que outros.
Tao pouco que exista alguém que a mais se eleve
se posto lado a lado com o mendigo
que dorme ao relento da vida,
envolto no sopro de um cobertor de memórias
sob um alpendre que lhe ignora, irrisórias
as tempestades e intempéries que o papelão abriga.
Casa sem tecto e paredes de papel onde o coração dormita.

 

Chego a invejar-lhe o corpo e alma,
essa que sente tudo o quanto por ela passa
por mais ínfimo que seja,
por mais desprezível que nos pareça
por mais banal que se tenha tornado às nossas mãos.
Um corpo sem se nãos, que com pouco se enjeita
de alegria partilhada
e onde nunca o supérfluo se ajeita;
Aos contornos, frequentemente largo
o amargo cheiro das pregas vazias.
Assim se parece a nossa necessidade de enchumaços,
pecados de luxuria pendurados
nos ombros, nos braços e enchendo-nos a barriga.
Almofadados os pés,
enterrados que estamos em créditos até aos joelhos
para bem-parecer até às orelhas.

 

Não creio que seja ele menos do que tu,
ou eu mais ou menos que qualquer um de vós.
A diferença entre nós mora num arranha céus
de cem andares. Onde somos vizinhos.
No rés-do-chão sente-se pouco,
E os que muito sentem, escolheram o rés-do-céu para viver.
E sonhar no centésimo andar, a contar do vale dos mortos.
Não creio que tenhamos nós mais do que eles.
Se uns têm mais alegria, outros têm mais prostração;
Se uns têm mais tempo, noutros é maior a dilação;
Se uns doam mais sorrisos, outros fazem as lágrimas florir
sem sentir, que todos nós temos alguma coisa
entre nascer e morrer. Espaço cronológico que nos limita a existência.
Pode apenas ser ar nos pulmões,
essa qualquer coisa que temos.
Mas temos. E dar-lhe-emos valor?

 

… é amor do Criador, o oxigénio que a todos brinda, por igual.

Abarcar

É preciso escrever com as mãos limpas
o eco da poesia que corre
entre as margens de erro da vida;
e emendar o céu... 
com o olhar simples
de quem apanha as estrelas distraídas
e voa, para que se abracem,
encurtando a distância
que, sob qualquer circunstância,
cabe inteira num poema.
Sem fragmentos, respiração suspensa
e uma história imóvel
entre os gracejos de um copo de vinho
que aviva veloz, a memória da tua voz
doce e calma a léguas de mim…
É preciso corrigir a lonjura sempre que chove
e o dilúvio da cidade solitária se abate sobre os nossos corações.
… escorrem as emoções, ao sul
desaguando no mar azul
que te tráz...
e só termina nos meus olhos.

Abarca-me.

Àquele lugar...

Quero querer, ou será que queria
um dia esquecer a lembrança
que recordo quando adormeço?
A que levaste contigo para onde nunca partiste,
lugar sem nome onde presente estás
e de onde voltas,
quantas vezes eu fechar os olhos e te sentir.
Queria querer que essas viagens em que te posso ouvir,
te trouxessem no esquecimento do que nos faltou viver.
Neste tempo sem morada, nesta saudade sem ausência
em que a distância é lugar onde habito.
 
Fechada no baú de recordações de tecidos antigos
com que o coração se vestiu
e que jazem, agora, em farrapos de memórias que quero despir.
O que foi que deixaste quando partiste?
Ou será que não foste?
Levaste o corpo livre. Deixaste em mim a alma?
Viva.
Deambulas tu pelos dias, vazio de mim.
Nascendo de novo.
Morro eu por transbordar de ti.
Quero querer, ou será que queria
um dia...
devolver-te o tempo em que te vivi demais?
Quero querer, ou será que queria?
Antes que morra e te leve comigo, quero!

Húmus

As minhas janelas não dão para lado nenhum.
Não há nada que se me mostre através delas,
as estradas e figuras que entrevejo,
não me levam a lugar algum…
perdeu-se o Homem e o ensejo
(lá no alto), pelo asfalto.

Há nos meus olhos cansaços vários
decorrentes do esforço exabundante
de sonhar desejos deficitários
p’la mão de Virgílio,
nas margens do Letes de Dante.

Constantemente me adio os escombros
inevitáveis, quando à meia, a noite cair
e o céu me esborrachar de vez a cabeça.
No inferno, todos se vão rir
e na terra, não há quem não me agradeça
a retirada.
Que maçada…
todos escolheram o domingo para morrer
e até nisso eu saí controversa.
Nem no princípio nem no fim. Exatamente a meio
onde a semana dispersa.
Avessa, pedi para assistir ao meu funeral,
enterraram-me, por isso, primeiro o caixão
(que dele quero morrer longe).
Queriam-me os sonhos em valas comuns?
Não.
Sequem as lágrimas choradas
e desacreditadas de religião.
A minha única fé é sonhar!
E quem sonha, nunca sonha em vão.

Alimentar-vos-á o húmus
da minha ressurreição
porque se morro, não morro toda de uma só vez
e o que por terra cai,
levantar-se-á outra vez
sem que vós me entendeis a mão.

Querem graça?
Peçam o óbulo à porta da igreja
que a vida não vai de bandeja
e eu 'inda estou no meu funeral.

 

As minhas janelas não dão para lugar nenhum.

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